Com os olhos do coração
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Com os olhos do coração

Margarete e Maria mostram que o amor de mãe vai muito além da visão

Margarete e Maria são dois exemplos de mães. São duas mulheres guerreiras que, em comum, têm o sonho da maternidade. A primeira é deficiente visual e nunca viu as filhas. Já a segunda é mãe de Beatriz, que é deficiente visual e aluna do Lar das Moças Cegas (LMC).

Margarete Oliveira tem 44 anos e há mais de 20 anos frequenta a instituição. Foi no Lar das Moças Cegas que ela deu início ao seu sonho de formar uma família. “Eu frequento o LMC há muito tempo. Fui interna por três anos, saí e voltei muitas vezes. Em 2000 voltei para a entidade e não saí mais. Foi nesse ano que conheci meu ex-marido”, conta Margarete.Margarete

Assim como ela, ele também é deficiente visual. Os dois se casaram e tiveram duas filhas: Kliviny, 8 anos, e Thifany, 5. Há quatro anos eles estão separados. Hoje Margarete vive sozinha com as filhas. “Nós nos damos muito bem e elas me ajudam muito. Sempre digo: a Kliviny foi um pedido que Deus atendeu e a Thifany foi um presente que Ele me deu. Elas são tudo para mim” diz, orgulhosa.

Ser mãe sempre foi o sonho de Margarete, e para conquistá-lo teve de enfrentar o preconceito da família. “Antigamente achavam que uma deficiente visual não podia ter filhos, formar uma família. Minha mãe pensava assim. Ela era contra, mas eu sempre quis ter a minha família e ser mãe. Um dia ela iria embora e eu não queria ficar sozinha”, explica.

Para ter sua primeira filha Margarete se planejou e buscou ajuda médica. “Eu tinha medo de que o bebê nascesse com essa deficiência. Como nós temos glaucoma e catarata, as chances eram grandes, mas eu pedi muito para Deus e ela nasceu perfeita, assim como, mais tarde, minha caçula. Elas têm acompanhamento médico frequentemente, para prevenção”.

Margarete cuida das meninas sozinha. “Eu as arrumo para irem à escola, acompanho o aprendizado, ajudo a fazer as lições de casa, levo ao médico… A deficiência não é um empecilho para criá-las. Elas são crianças normais. Eu procuro fazer o que acho que é certo. Faço o melhor que posso, tento passar exemplo, principalmente”.

Segundo a aluna, a fase mais difícil foram os primeiros meses de vida. “Quando tive a primeira, fique seis meses com a minha irmã, que me ajudou. Com a Thifany, apesar de ter sido uma gravidez mais complicada, fiquei sozinha desde os vinte dias”, conta.

Sobre a deficiência visual Margarete revela que preferiu não falar sobre ela à filha mais velha. Procurou ajuda das professoras da creche para explicar isso à menina. “Achava que ela não iria entender, mas como eu e o pai andávamos de bengala, ela foi percebendo que nós éramos diferentes. Então as professoras foram explicando. Com a mais nova foi a mesma coisa. Hoje elas entendem e aceitam, sempre colocam as coisas na minha mão, chegam perto para mim. É delas.”, explica.

Apesar de nunca ter visto as filhas, Margarete as descreve com um sorriso no rosto. “A mais velha é grande, tem quase 1.50 m, é gordinha, tem o rosto redondo, nariz e boca bem feitos. A mais nova é mais magrinha, tem o rosto comprido e se parece comigo”.

O outro lado

Maria e Bia posam para fotoA deficiência visual também faz parte da relação de Maria Gomes Barbosa e de sua filha, Beatriz. Assim como Margarete, Maria sempre sonhou em ser mãe. Ela fez tratamento por 15 anos, mas não engravidou. Aos 35, sua médica recomendou-lhe que desistisse de ter filhos devido a problemas de pressão. Algum tempo depois, Maria separou-se e conheceu o pai de Bia. Depois de 10 anos neste novo relacionamento, descobriu, aos quase quatro meses de gestação, que estava grávida.

“A Beatriz não foi planejada, mas foi muito esperada. Fiquei grávida aos 46 anos e tinha pressão alta. Foi uma gestação de alto risco. Fui internada várias vezes. Na última vez, com cinco meses de gravidez, fiquei até a Bia nascer. Ela nasceu com 28 semanas”.

Beatriz nasceu prematura. Ficou um mês e meio internada e foi para casa com menos de dois quilos. “Ainda não sabíamos que ela não enxergava, mas percebi que o olho dela ficava girando, que não tinha direção e a levei ao pediatra, que me encaminhou para a oftalmologista. Ela fez o exame e constatou que ela tinha retinopatia de prematuridade”, explica.

Assim que descobriu a deficiência visual, Maria foi a São Paulo para fazer exames na menina. Enquanto isso sua cunhada procurou o Lar das Moças Cegas para que Beatriz passasse a ser atendida pela instituição. “Eu já conhecia o trabalho do LMC, já tinha contato com deficientes visuais no mercado em que trabalhava, mesmo assim foi muito difícil aceitar essa realidade. Se hoje eu lido bem com o problema da minha filha devo tudo ao Lar das Moças Cegas. Os profissionais daqui me ajudaram muito”.

Bia frequenta a entidade desde os sete meses e Maria acompanha de perto o tratamento da filha. “Eu parei de trabalhar para cuidar dela. Para mim é muito importante acompanhar o tratamento, porque ele começa no LMC, mas eu tenho que continuar em casa. Eu vivo para ela. Eu sempre falo que ela é a melhor coisa que aconteceu na minha vida”.

Beatriz frequenta várias atividades no LMC e a mãe não fica atrás. Maria participa da oficina de mães, do curso de braille, da sessão com a psicóloga e este ano se cadastrou para ser voluntária na instituição. “Aprendi a fazer artesanato, coisa que nunca imaginei. Além de ajudar a passar o tempo, faço tapetes e guirlandas que vão para as feiras da instituição”.

Apesar de não ter tido outros filhos, Maria não vê diferença na criação de Beatriz. “Quando aceitamos a realidade não tem diferença nenhuma. Beatriz tem suas limitações, mas está indo muito bem na escola e é uma ótima criança. Às vezes eu até esqueço que ela não enxerga. Faz tudo como uma criança normal, inclusive artes. Às vezes temos de chamá-la à atenção”, ressalta.

Para Maria a filha enxerga com os olhos do coração e da mente. “Sempre falei isso para ela. Uma vez perguntaram para ela se ela era ceguinha. Eu expliquei que ela era deficiente visual, e que era a mesma coisa que ser cega. Sempre que alguém pergunta ela explica dessa mesma forma”, conta.

Maria não esconde o orgulho que tem da filha, porém sabe das dificuldades que ela enfrentará. Entre elas, o preconceito. “Infelizmente há preconceito. Dizem que em nosso país não há preconceito, mas é onde tem mais. E o preconceito não é das crianças, é dos adultos. Tem gente que não quer ficar perto da gente no ônibus, mães que não deixam as crianças brincarem com ela, mas na escola os colegas a aceitam muito bem e a ajudam. O preconceito machuca qualquer mãe, mas o que eu quero é fazer com que ela se defenda. O importante é ela estar feliz”, conclui.

 

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