Quem nunca ouviu falar que Deus escreve certo por linhas tortas? Não sei bem se esta expressão é sempre empregada de maneira sábia, contudo ela remete à percepção de que a caminhada que nos levará a boas vitórias nem sempre nos agrada.

    Caminhadas estas que lembro muito bem desde a primeira vez que segurei a bengala-guia em mãos.  Em meio à reabilitação, aquele foi o divisor de águas, só quem sente é quem sabe. Devidamente orientada, superei árduas etapas que, para minha surpresa, não me geraram sofrimento nem constrangimentos; obtive crescimento, desenvoltura e avidez.

  Voltando no tempo, nunca imaginaria este trecho tão precioso de minha vida,  nem em meus devaneios de infância e juventude. Quem é capaz de subverter uma situação de perda em enriquecimento de alma, trajetória bem sucedida e uma missão que vale mais que ouro a ser cumprida?

 É verdade, Ele deixou como escrito mais valioso e explícito a bíblia; mas continua escrevendo por aí de diversas maneiras.  É um grande romantismo que perpassa por nós ao pensarmos nas estrelas. Mais romântico ainda é saber que dentre a existência de trilhões delas, O Criador chama cada uma pelo nome e Sua grandeza é incomparavelmente maior que o próprio céu, onde elas estão.

Admirar a noite estrelada sempre foi mesmo um chavão, um lugar comum no cinema e nas músicas. De vez em quando, gosto de ficar no quintal e comparar quantos caminhos imperfeitos, o espalhar delas no céu, o homem pode vir a trilhar.

Todavia, na realidade dura que vivenciamos, fora da ficção, foi onde nutri meus primeiros passos de dança na companhia delas.  Esta leitura só mesmo Ele poderia ter escrito para ser lida à noite, sem papel e tinta e traduzindo-se por si só em qualquer canto do mundo.

Recolhendo um pouco de inspiração, lembro-me do complemento fundamental para fazer acontecer, ou seja, a transpiração. Tenho que relembrar que em minha profissão se sobrevive direcionando o olhar para esquadrinhar ao redor, e não o alto, pois logo a importante ferramenta da comunicação veio a me faltar no último ano de faculdade.

Perder o chão durante algum tempo e me obrigar a refazer escolhas era nada mais que o oleiro pegando um vaso quebrado para refazê-lo em honra. De fato, através da fé custam-se muitas lágrimas para aprender a diferenciar o conformismo da perseverança na simplicidade. Entretanto, a partir de então, senti forças para enfrentar este mundo, e finquei meu sorriso como quem hasteia uma bandeira.

    O retorno à Universidade, neste ano, trouxe-me nostalgia. Ao adentrar os ambientes, só boas recordações e saudades povoavam minha cabeça, sabendo que, obviamente, minha turma querida não estaria mais lá. Senti-me fazendo o que deve ser feito ao dar continuidade a projetos parados no tempo, reaprendendo o que pouco valorizei à época, abrindo novos caminhos e reconquistando o que era meu.

    Em um prédio enorme de corredores largos, sem nenhuma linha guia, fui prosseguindo nas linhas tortas; as mesmas das quais me referi anteriormente. Dentre dias bons e maus, experimentei passar como invisível ou alienígena em meio à multidão, como também muitos braços de auxílio cotidiano passaram a morar no coração.

 Para quem porventura subestima a sapiência de alguém cego, sei que plantei reflexão.  A propósito, as tais linhas tortas sempre foram as certas. Do contrário, eu não seria capaz de perceber o mais relevante da história. É que na verdade o olhar atento nos faz entender que o brilho mais intenso está aqui embaixo já que cada um de nós foi feito à imagem e semelhança Dele.  

Pois bem, sapatilhas abençoadas me aguardam em breve.

 

 

Verena Amaral – Aluna e Telefonista do Lar das Moças Cegas