Soluções de acessibilidade para deficientes visuais não são suficientes, diz especialista
Soluções de acessibilidade para deficientes visuais não são suficientes, diz especialista

Soluções de acessibilidade para deficientes visuais não são suficientes, diz especialista

Você já parou para pensar como deficientes visuais fazem para pagar suas contas, ir ao banco e realizar tantas outras tarefas financeiras que são corriqueiras para quem enxerga? Acessibilidade e inclusão são assuntos de todos os cidadãos. Felizmente, algumas soluções estão sendo desenvolvidas, mas podem ainda não ser suficientes.

“As máquinas de cartão com teclas em touch não têm nenhum tipo de acessibilidade. Você aperta o botão sem ter certeza do que está fazendo. Temos que ficar falando a senha, que é pessoal e intransferível, para terceiros digitarem. Queriam inovar, mas acabaram piorando nossa situação”, desabafa Marina Guimarães, funcionária pública e deficiente visual.

Ir ao caixa eletrônico também não é tarefa simples. Existe uma norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) sobre acessibilidade: estes terminais deveriam contar com leitores de tela que leem o que está na tela para o deficiente visual.

“Porém, muitos terminais não estão habilitados para isso e o leitor de tela não contempla todas as opções, fazendo com que o usuário precise da ajuda de terceiros para realizá-las”, conta Sarah Marques, secretária de Tecnologia e Acesso à Informação da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB) e deficiente visual.

Por isso, Marina prefere resolver suas pendências financeiras pelo aplicativo do banco e receber boletos por email – duas plataformas que permitem que o leitor de tela, amplamente utilizado por cegos, faça seu trabalho, permitindo que ela saiba tudo que está acontecendo.

Possíveis soluções de acessibilidade para deficientes visuais

Recentemente, a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), entidade que representa o setor de meios eletrônicos de pagamento, apresentou duas soluções de acessibilidade.

Uma delas, voltada para as máquinas de pagamento touch screen, é o aplicativo Pay Voice, disponível Android e iOS. Na hora de pagar, a cliente aciona o app e aponta a câmera para a tela da máquina. Este, por sua vez, lê as informações da transação e as traduz em áudio. Assim, ela poderá se certificar de que está pagando o valor certo antes de digitar a senha.

Outra solução desenvolvida, também voltada às máquinas com teclado touch screen, é uma película com identificação tátil para ser fixada na superfície das teclas, permitindo ao deficiente visual seu reconhecimento.

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Acessibilidade para quem?

O que parecem ótima saídas podem, na verdade, ser apenas um pequeno passo em busca da real acessibilidade, inclusão e independência de deficientes visuais no sistema financeiro.

A ONCB, por exemplo, não recomenda o Pay Voice, apesar de ter trabalhado junto à Abecs desde 2015. “Além de apresentar falhas técnicas, o que a ONCB sempre defendeu é que a acessibilidade deve estar presente na própria máquina, seguindo o conceito de desenho universal, para que não seja ônus do usuário portar um outro dispositivo”, defende Sarah, que também é Mestra em Ciência da Informação pela UFRJ.

A especialista também aponta que o aplicativo no celular exclui pessoas que não têm acesso ou habilidade com smartphone e com o escaneamento da tela. “Também implica questões de segurança, já que a pessoa terá que expor seu smartphone, além de ter que explicar e convencer os vendedores de que precisa aproximar o celular da máquina. Portanto, a questão da inacessibilidade às máquinas touch de cartão continua.”

Soluções reais para deficientes visuais

Segundo a especialista, a parceria da ONCB com a Abecs começou em 2015, quando as instituições começaram a se debruçar sobre a viabilidade de uma técnica compatível com a demanda da Organização: uma solução implantada nas próprias máquinas, similar aos leitores de tela já usados nos smartphones, que permita que o usuário saiba tudo o que está na tela da máquina de cartão.

“Acontece que, no final de 2016, a Abecs parou de responder a todos os nossos contatos e, no fim do ano passado, propôs o Pay Voice, que acabou de ser lançado, apesar da ONCB não ter aprovado como solução adequada pelas razões que já expliquei”, relata Sarah.

Já a película para as máquinas de pagamento touch screen foi aprovada pela ONCB, mas apenas como solução paliativa para as máquinas já existentes no mercado.

“Necessitamos de máquinas que permitam que as pessoas com deficiência visual saibam o valor que está sendo cobrado e que possam digitar a senha com segurança e autonomia”, reitera.

Já Ricardo Vieira, diretor-executivo da Abecs, defende as soluções encontradas até o momento. “Não é perfeita, mas sabemos que este processo não está no final, ele é dinâmico. O grupo de trabalho continua discutindo para corrigir eventuais erros e encontrar novas soluções. Mas pode ter certeza que, mesmo com o que já temos, estamos na vanguarda mundial em acessibilidade”, diz.

Ele conta que, há dois anos, a Abecs foi procurada pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos com o problema pontual das máquinas de cartão touch screen. A partir da demanda, foi montado um grupo de trabalho em conjunto com diversos órgãos – inclusive a ONCB -, que encontraram na película (chamada de “overlay”) uma solução que, apesar de não ser perfeita, foi tida como minimamente satisfatória.

De acordo com Vieira, há, ainda, uma dificuldade para desenvolver soluções ainda mais abrangentes: “As máquinas de touch screen possuem um padrão internacional. O Brasil conseguiu uma excepcionalidade para conseguir a aplicação do overlay, mas não podemos adotar soluções que não permitam o fluxo de transações mundiais”, completa.

“Como o grupo de trabalho se tornou permanente, estamos desenvolvendo um sistema de QR code para substituir o atual sistema do Pay Voice, feito em OCR [reconhecimento ótico de caracteres], mas ele requer muitas adaptações de todos os equipamentos e sistemas, o que pode levar de 12 a 18 meses”, finaliza.

Fonte: https://financasfemininas.com.br/solucoes-de-acessibilidade-para-deficientes-visuais-nao-sao-suficientes-diz-especialista/

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