Ações inclusivas aproximam deficientes visuais da cultura em Belo Horizonte
Ações inclusivas aproximam deficientes visuais da cultura em Belo Horizonte

Ações inclusivas aproximam deficientes visuais da cultura em Belo Horizonte

Em cena, uma atriz está sentada no sofá. Outros quatro atores em pé tentam forçá-la a sair do local. Empurram-na para fora do recinto. Esse jogo de corpos e a intensidade da cena o funcionário público Carlito Homem de Sá só conseguiu apreender porque a peça tinha audiodes-crição. Deficiente visual, o rapaz de 30 anos é ávido por teatro, mas nem sempre consegue ter a compreensão total da obra.

A audiodescrição geralmente é oferecida em sessões específicas. Na entrada o espectador recebe um kit com fone de ouvido pelo qual recebe informações sobre expressões usadas pelos artistas durante a encenação ou quando alguém sai do palco, por exemplo.

“Tem muitas cenas que não dão para perceber somente pelas falas dos atores. Se não tivesse a audiodescrição, as falas ficariam confusas. Esse trabalho é necessário. Consegui ‘ver’ 100% da peça e foi incrível”, afirma Carlito, que foi conferir “Nós”, trabalho mais recente do grupo Galpão.

Apesar de novo no Brasil, o recurso da audiodes-crição tem aparecido com certa frequência em produções da capital mineira. A última edição do Festival Sesi Bonecos do Mundo também contou com o recurso. “Hoje há conscientização maior sobre acessibilidade. Isso torna a coisa mais fluida. E a própria comunidade com deficiência visual cria expectativa e sempre nos liga para saber se tem programação com o recurso”, diz a roteirista e pesquisadora da audiodes-crição Flávia Mayer, à frente da empresa SVOA, que adaptou o espetáculo do Galpão e do Sesi Bonecos do Mundo.

Inclusão
A empresa é um desdobramento das pesquisas de Flávia no meio acadêmico desde 2009, quando realizou um mapeamento sobre o acesso à cultura na capital. “Os números eram muito altos: 50% dos deficientes visuais nunca tendo visto um DVD, mesmo em casa. Cerca de 70% nunca tinha ido ao cinema ou teatro”.

É preciso quebrar a ideia de que museu, teatro ou cinema não falam para esse público. “A cultura tem que falar para todos os públicos. Se o deficiente visual sabe que o local tem audiodescrição ou outros recursos, e vai sozinho. Passa a não depender de ninguém para compreender uma obra ou ir ao teatro. Isso é muito empoderador”.

Capital já tem espaços para atender todos públicos
Um dos lugares que o estudante de Direito Luciano Costa, de 29 anos, mais gosta de frequentar em Belo Horizonte é a Biblioteca Pública. “Lá encontro acervo super acessível, além de fazer várias amizades com as pessoas que frequentam o lugar”, comenta o moço, que perdeu a visão aos oito anos. Ele considera que não há muitos espaços que oferecem recursos para o deficiente visual. “Adoro cinema, mas não vou muito, pois entendo somente 50% do filme”, lamenta.

Mas na capital muitos espaços já caminham para atender todos os públicos. Levantamos algumas opções que contam com recursos para acesso do deficiente visual. A Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade, é destaque, como o estudante já constatou. Tem Setor Braille com 2 mil livros, outros 1500 títulos em áudio e 60 filmes com audiodescrição. Espaço também para que artistas exponham obras que possam ser tocadas. Ainda dispõe de serviço de voluntários dispostos a ler para quem quiser ouvir, e o clube de leitura, que sempre discute um título a cada dois meses.

Ali mesmo, na Praça da Liberdade, outros equipamentos culturais podem ser explorados por deficientes visuais. O CCBB tem indicações táteis para o deslocamento no espaço, visitas mediadas e com audiodescrição, além de materiais disponíveis para o toque, que dialogam com a temática das exposições. Nos fins de semana tem contação de histórias, que muitas vezes incluem elementos sensoriais.

No Museu das Minas e do Metal é possível agendar visitas guiadas por educadores que promovem uma percepção sensorial do acervo. Um exemplo é o uso do Kit de Minerais, em que o público pode manusear as amostras.

Na Casa Fiat, a exposição “Almanaque – Pinturas de Miguel Gontijo”, tem no acervo dois livros de arquivo confeccionados em lona de tela e pintados com tinta a óleo e acrílico que podem ser manuseados pelos visitantes. Outra exposição em cartaz é a da artista Yara Tupynambá. Ambas com audiodescriçao das obras e do espaço – basta solicitar ao atendente ou agendar visita.Na praça da Estação, o Museu Artes e Ofícios abriga no acervo peças que podem ser tocadas e legendas em braille, além de recurso de audioguia, com informações sobre o espaço e o acervo. Opção é ir ao Museu Histórico Abílio Barreto. O local possui sala de interação com o visitante, onde peças do acervo podem ser manuseadas. A equipe é capacitada para realizar a visita com o público. Além disso, um dos espaços expositivos possui materiais com o recurso de audioguia e vídeos com audiodescrição.

Mais sobre audiodescrição 
Recurso de acessibilidade para pessoas com deficiência visual que amplia possibilidades de compreensão e interação com obras e manifestações de conteúdo visual. Pode ser feita para exposições, filmes, programas televisivos, teatro e dança, materiais pedagógicos, eventos esportivos, dentre outros. (fonte: SVOA)

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