Após bolada no futsal, paulista dribla baixa visão e vira artilheiro no goalball

Após bolada no futsal, paulista dribla baixa visão e vira artilheiro no goalball

 

Uma bolada na infância mudou o destino de Paulo Saturnino. O acidente em um treino, quando tinha apenas 9 anos, antecipou a descoberta de uma doença degenerativa da visão, mas não afastou o jovem paulista do esporte. Só que em vez de exibir habilidade com os pés, agora ele demonstra precisão com as mãos. Vice-campeão nas Paralimpíadas Escolares, o adolescente foi o artilheiro da competição de goalball e chamou a atenção do coordenador técnico da seleção brasileira da modalidade.

Paulinha lança bola
Paulo Saturnino arremessa a bola pelo time de São Paulo nas Paralimpíadas Escolares (Foto: Divulgação / CPB)

Nascido em São Vicente, no litoral de São Paulo, o menino foi incentivado pela família a se exercitar desde cedo. Foi matriculado na natação e no caratê e depois entrou em uma escolinha de futsal. Paulo foi se destacando com a bola nos pés até que um dia recebeu do professor a notícia de que um olheiro do Santos estaria interessado em conversar com seus pais.

No entanto, Paulo nem chegou a fazer o teste. Durante um treino, levou uma bolada no rosto. Na hora, ninguém percebeu a gravidade do problema. Mas, aos poucos, o menino foi sentindo dificuldades para enxergar o quadro negro na escola, e o desempenho nas aulas caiu. A mãe, Alessandra, o levou a um oftalmologista, que deu um diagnóstico surpreendente e assustador.

Paulinho em mais um lançamento
Paulo durante treino: início no esporte foi no Lar das Moças Cegas (Foto: Arquivo pessoal)

– De cara, eu não percebi que tinha perdido a visão, mas fui piorando na escola, não via mais o que estava na lousa direito. O médico fez os exames e disse que eu tinha a doença de Stargardt. Eu já perderia a visão mesmo, a bolada na verdade só antecipou tudo – conto Paulo.

A doença de Stargardt se caracteriza pela degeneração principalmente da visão central devido à morte de células em uma região da retina chamada mácula. Atualmente, ele diz ter cerca de 10% da visão. Em vez de se abalar, o rapaz, hoje com 16 anos, se adaptou rapidamente ao novo mundo.

No colégio, ele conta com a ajuda de colegas, que ditam o que está escrito no quadro. Tanto apostilas quanto provas são impressas de forma ampliada para que o aluno consiga lê-las sem depender de ninguém. No esporte, o contato com modalidades paralímpicas foi iniciado no Centro de Educação e Reabilitação para Deficientes Visuais Lar das Moças Cegas. Com o time de goalball, Paulo treina quatro vezes por semana.

Paulo posa para foto com coordenadora
Paulo ao lado de Carla da Mata, coordenadora nacional de arbitragem do goalball (Arquivo pessoal)

– Na minha família ninguém conhecia, mas como eu gostava de esportes eu procurava na internet e, logo depois da bolada, já compramos uma bola com guizo. Quando entrei no goalball a primeira coisa que pensei era ser profissional, tenho muita vontade. Não tenho medo de levar outra bolada e piorar. Acho que coisas acontecem na vida da pessoa porque tem que acontecer. Não precisa ter medo.

Além do próprio problema, Paulo enfrentou ainda outro drama familiar. O pai, de mesmo nome, precisou enfrentar o tratamento contra um câncer na garganta – felizmente já está em remissão. Podendo concentrar-se totalmente nos estudos e no esporte, o rapaz conseguiu integrar a equipe de São Paulo nas Paralimpíadas Escolares deste ano. Com 27 gols, sendo 11 deles marcados na vitória sobre Minas Gerais por 15 x 9 nas semifinais, ele foi o artilheiro da competição. Seu time ficou em segundo lugar após ser derrotado pela Paraíba na final.

– Ele me chamou a atenção pela locomoção dentro de quadra e também pelo arremesso. Vamos tentar marcar um treinamento com ele, fazer uma classificação oftalmológica mais apurada para que não tenhamos risco de perdê-lo. Mas ele tem grandes possibilidades no goalball, sem dúvida – disse o coordenador técnico da seleção brasileira de goalball, Paulo Miranda, em declaração à assessoria do Comitê Paralímpico Brasileiro.

Paulinho se prepara para lançamento
Paulo encerra Paralimpíadas Escolares com 27 gols e elogio de coordenador técnico da seleção (Foto: Divulgação / CPB)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *