Após punição que tirou ouro, brasileiro cego fatura o título mundial nos 200m

Após punição que tirou ouro, brasileiro cego fatura o título mundial nos 200m

Depois de conquistar a medalha de prata nos 100m T11 (cego total) no Mundial Paralímpico de Atletismo, em Doha, no Catar, Felipe Gomes viveu uma montanha russa de emoções. Foi o mais rápido dos 400m, mas foi punido com a desclassificação ao ser comprovado que o seu guia, Jorge Pereira Borges, havia pisado na linha da raia que separa os competidores. Morador da comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, o carioca de 29 anos não se deixou abalar e provou a sua soberania, desta vez, nos 200m, prova que contou com o astro David Brown, recordista mundial (22s41). Com os quatro finalistas correndo abaixo de 23s, Felipe cravou o tempo de 22s83 para conquistar o tão sonhado ouro que lhe foi tirado anteriormente, superando por apenas um milésimo Ananias Shikongo (22s84), da Namíbia. Daniel Mendes (22s91) completou o pódio. O americano piorou a marca da semifinal (22s83) e terminou em quarto, com 22s99.

Após sofrer punição e perder título nos 400m, Felipe Gomes comemorou muito o ouro nos 200m T11 do Mundial (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)Após sofrer punição e perder título nos 400m, Felipe Gomes comemorou muito o ouro nos 200m T11 do Mundial (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

– Esse final foi emocionante. Eu só pensava na linha de chegada. Era a minha vez. Tiraram a medalha nos 400m e essa era a nossa oportunidade. Vim com sangue nos olhos, busquei e soltei faltando uns 20m. Passamos a linha sem saber o que tinha acontecido, mas o Jorginho viu depois no telão que tínhamos vencido. A gente tinha que virar a página. O Mundial não acabou ali (400m). Unimos forças para continuar executando o trabalho da melhor maneira possível. A coroação veio agora, com essa medalha de ouro. Estou feliz por mim, pelo Daniel, que é um amigão, e pelo Brasil – contou Felipe, que ainda compete no revezamento 4x100m.

Bicampeão mundial nos 100m, Daniel Mendes manda beijo para torcida após ficar com o bronze nos 200m do Mundial de Doha (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)
Bicampeão mundial nos 400m, Daniel manda beijo para torcida após ficar com o bronze nos 200m no Catar (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

Com três Mundiais, duas Paralimpíadas e três Jogos Parapan-Americanos na bagagem, o atleta começou a correr por acaso, após uma conversa com um amigo pelos corredores do Instituto Benjamin Constant, tradicional instituição de ensino para deficientes visuais. Medalhista de ouro nos 200m em Londres 2012, Felipe vive o auge. No Parapan de Toronto, no Canadá, último compromisso antes de Doha, ele voltou para casa com os títulos nos 400m e no revezamento 4×100 e a prata nos 200m. Para o guia, é a comprovação de que eles estão no caminho certo.

– Sabíamos que tínhamos que dar o nosso máximo. Me concentrei em colocar ele na direção certa. E correr, correr e correr. Aqui é Mundial, é diferente. Quem estiver na frente, ganha e acabou. Não tem recordista, não tem ninguém. Campeão mundial: Felipe Gomes. O David Brown era considerado um cara imbatível nos 100m. Quando ele foi campeão e o Felipe foi prata no Mundial, todo mundo perguntava a ele como ganhar do David Brown. Ele bateu o recorde na Califórnia, amanhã, a gente pode bater esse recorde no Brasil. Aqui é Mundial, um do lado do outro. Quem tiver mais sangue frio, cabeça e treino, ganha. Mas nós somos campeões mundiais. Isso ninguém nos tira, quer dizer, cadê o árbitro (risos)? – disse Jorginho.

Em recuperação de uma lesão na perna esquerda, sofrida às vésperas da viagem para o Catar, Daniel Mendes era o retrato da felicidade. Após o bicampeonato mundial nos 100m, ele não vê a hora de matar as saudades da esposa e visitar a mãe em sua terra natal, Nova Venécia (ES).

– O nosso departamento médico agiu de forma maravilhosa, o Gustavo, o Mauro, a doutora Andreia, os outros fisioterapeutas que nos atenderam no Brasil… Todo mundo trabalhou muito nessa perninha, inclusive, papai do céu, para que eu pudesse correr. O Heitor foi espetacular na estratégia de corrida, soube acertar os pontos onde estavam as minhas limitações, convertendo isso para que eu sentisse o mínimo da lesão. Conseguimos mais uma final e mais um pódio. Não esperava um resultado tão bom. Preciso de férias para curar a minha lesão e voltar bem forte. O nosso próximo compromisso é o Rio. O país espera muito de nós, por isso, trabalhamos muito mais para corresponder as expectativas. A chance de brigarmos por mais medalhas em 2016 é muito palpável. Agora, quero dar um abraço na minha esposa em São Paulo, e ela já me liberou para visitar a minha mãe. Há três meses, não a vejo, a saudade está muito grande.

BRASIL CONQUISTA SETE MEDALHAS

Prata nos 200m T44, Alan Fonteles conquistou o bronze nos 200m, prova vencida pelo americano Richard Browne (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)Prata nos 200m, Alan Fonteles foi bronze nos 200m em Doha (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

O Brasil conquistou sete medalhas nesta quinta-feira. E o dia começou com outra dobradinha. Silvânia Costa conquistou o ouro no salto em distância T11, com a marca de 5m04, coroando uma trajetória de vida difícil. A atleta de Três Lagoas (MS) foi a única a saltar acima dos 5m na final, que teve a paranaense Lorena Spoladore (4m75) com a prata. A sueca Viktoria Karlsson completou o pódio. A também brasileira Thalita Simplício ficou em quarto lugar (4,31m).

Nas provas de campo, o país mostrou evolução ao conquistar duas medalhas no lançamento de dardo. Recordista mundial do lançamento de dardo F37 (paralisados cerebrais), Shirlene Coelho sagrou-se campeã mundial, com a sua melhor marca em Mundiais: 37m03. Pela classe F56,  Raíssa Machado ficou com a prata ao obter 18m82.

Após tirar um ano sabático, Alan Fonteles mostrou que, aos poucos, vem recuperando o ritmo que lhe colocou como um dos maiores atletas paralímpicos da história. Ainda longe da forma ideal, o paraense provou mais uma vez o seu talento ao faturar o bronze nos 100m T44 (amputados), com 11s02, em outra prova dominada pelo americano Richard Browne (10s61), que já havia sido campeão nos 200m. O sul-africano Arnu Fourie (10s93) levou o bronze. Em Lyon 2013, Alan venceu os 100m, 200m e 400m.

Nesta sexta-feira, o Brasil terá o retorno de Odair Santos, fundista da classe T11, que sofreu hipertermia nos 5.000m e caiu três vezes na pista, sendo encaminhado para um hospital em Doha de cadeira de rodas. Ele tentará o pódio nos 1.500m, às 11h52 (de Brasília).

Fonte: http://globoesporte.globo.com/paralimpiadas/noticia/2015/10/apos-punicao-que-tirou-ouro-brasileiro-cego-fatura-o-titulo-mundial-nos-200m.html

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