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CEGOS MOSTRAM QUE EXPRESSÕES FACIAIS SÃO HEREDITÁRIAS
David Biello

Parentes cegos (esquerda) e com visão normal (direita) possuem as mesmas expressões faciais, mesmo quando separados ao nascer, como a dupla ao alto. Crédito: Cortesia da PNAS.

Quando se concentra, um jovem cego comprime os lábios da mesma forma que sua mãe, apesar de nunca ter visto seu rosto. Esse é um dos exemplos citados pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences USA (PNAS), mostrando que pessoas cegas que nunca viram seus familiares compartilham com eles as mesmas expressões faciais. Até mesmo caretas podem ser hereditárias.

Charles Darwin foi o primeiro a notar que as expressões faciais em humanos e animais são inatas. Um estudo conduzido por Paul Eckman,da Universidade da Califórnia, em São Francisco, mostrou que as maneiras com as quais os rostos humanos denotam emoções são universais: desgosto é desgosto na Nova Guiné ou no Brasil. Mas existem variações nessas demonstrações faciais de estados mentais, devido a diferenças na configuração dos músculos e nervos de cada pessoa. Por exemplo, um sorriso pode formar covas nas bochechas e ainda ser reconhecido como tal. O repertório de expressões de um indivíduo surge nos primeiros seis meses de vida e permanece constante pelo resto dela.

A universalidade das expressões e as diferenças entre musculaturas individuais sugerem que estas têm uma base genética, mas até recentemente apenas algumas pesquisas com gêmeos haviam sido feitas. Porém, é difícil estabelecer esta base genética através desse tipo de estudo e descartar a hipótese de que os gêmeos aprenderam suas expressões através de observação. Assim, Gili Peleg e seus colegas da Universidade de Haifa em Israel testaram 21 famílias contendo um membro cego. Os voluntários - 21 cegos e 30 parentes com visão normal - foram filmados em várias situações. Eles foram solicitados a resolver problemas difíceis, contar uma experiência pessoal triste, ouvir uma estória repulsiva e, para provocar surpresa, responder a uma pergunta tola feita repentinamente. No total, seis expressões foram testadas: concentração, raiva, tristeza, alegria, repulsa e surpresa.

Nos voluntários cegos, as expressões faciais relativas a tristeza, concentração e raiva foram significativamente mais parecidas com a de seus familiares do que com a de membros de outras famílias. Um computador programado para reconhecer expressões semelhantes associou os voluntários cegos a seus parentes 80% das vezes. Além disso, levantamentos indicaram que os cegos não tinham aprendido suas expressões tocando os rostos de seus familiares e copiando seus movimentos. "Na verdade, eles consideram essa atitude um `mito Hollywoodiano`", dizem os pesquisadores.

Parentes separados após o nascimento também compartilham expressões. O jovem cego mencionado acima foi abandonado por sua mãe dois dias depois de nascer e só a reencontrou aos 18 anos de idade. Porém, eles tinham pelo menos três expressões faciais em comum, o que reforça a suspeita iniciada por Darwin há mais de cem anos. Como ele mesmo colocou em seu livro A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, "A hereditariedade da maioria de nossos atos expressivos explica o fato de os nascidos cegos os demonstrarem de maneira semelhante aos que possuem visão, de acordo com relatos do Reverendo R.H. Blair".


Fonte: David Biello (Revista SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL).


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