Calçadas de São Paulo ainda precisam melhorar para incentivar paulistanos a andarem mais
Calçadas de São Paulo ainda precisam melhorar para incentivar paulistanos a andarem mais

Calçadas de São Paulo ainda precisam melhorar para incentivar paulistanos a andarem mais

Para mais gente andando nas ruas, a cidade precisa investir na melhoria do que se chama de “caminhabilidade” local.

Ao redor de um quarteirão inexpressivo na Zona Oeste de São Paulo, a calçada apresenta 59 padrões diferentes. Há buracos, mudanças bruscas de cimento batido para paralelepípedos, desníveis acentuados, degraus com meio metro de altura e, em duas das esquinas, cadeiras de bares tomam todo o espaço disponível. O retrato local reflete um problema generalizado da cidade (e do país): em tese refúgio dos pedestres, as calçadas são muito pouco receptivas para quem escolhe – ou precisa – se locomover a pé.

Em São Paulo, as calçadas são de responsabilidade do dono do imóvel a sua frente. Sancionada em 2013, a Lei das Calçadas estabelece alguns padrões a serem seguidos, mas na realidade há pouca aderência dos paulistanos a fazerem as alterações necessárias, na mesma medida que falta capacidade de fiscalização para a prefeitura. Além de deixarem a desejar no que tange a manutenção das vias, às vezes os responsáveis não cooperam para facilitar o trânsito por elas. “Em geral, a perspectiva de integração da calçada com o percurso não existe, apenas do segmento [em frente ao imóvel]”, diz Myriam Tschiptschin, líder do Núcleo de Urbanismo do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE).

Myriam chama atenção para um conceito chamado caminhabilidade (walkability, no original em inglês), que avalia o quanto determinado espaço é convidativo para o deslocamento de pedestres, assim como de outros modais ativos. Além de ser essencial na integração com qualquer outro tipo de transporte, a generalização da prática de andar a pé acaba trazendo inúmeros benefícios para a cidade. “Há uma melhora no condicionamento físico das pessoas, por exemplo, o que pode resultar numa menor demanda por serviços de saúde pública”, afirma a especialista.Da mesma maneira, o foco na caminhada tira dos carros o papel principal na mobilidade urbana. Como resultado, há diminuição da emissão gases poluentes. Faz tudo parte de uma cadeia que ainda resulta numa dinamização do comércio de rua, além de um aumento na sensação de segurança com áreas públicas mais movimentadas.

Essa, no entanto, ainda não é a realidade de São Paulo. “São necessárias estratégias para fazer com que as pessoas deixem o carro e optem pela caminhada”, explica Myriam. “Um bom exemplo é a fruição pública dentro de lotes privados, prevista no novo plano diretor da cidade”, diz, em relação ao instrumento que oferece incentivos aos projetos que reservam espaços abertos ao público dentro de uma lote. Isso permite, por exemplo, cruzar de uma rua à outra sem precisar seguir todo o quarteirão.

Da mesma forma, a revisão do plano diretor traz mais medidas que podem melhorar a caminhabilidade da cidade, como incentivo ao uso misto (incluir espaços comerciais em empreendimentos residenciais), desincentivo à construção de garagens em construções próximas a regiões bem servidas por transporte público e restrições à elementos opacos, ou seja, muros gigantescos que isolam o campo de visão de quem está na calçada, entre outras disposições.

Enquanto essas políticas não surtem efeito, a infraestrutura das calçadas dificulta a vida de quem precisa utilizá-las no dia a dia, principalmente difícil quando o sujeito que utiliza esse espaço tem alguma restrição de mobilidade.

“As calçadas são bem ruins mesmo”, resume sem cerimônia Milene Orifisi. Gerente de comunicação e redes sociais da Adeva (Associações de Deficientes Visuais e Amigos), Milene resume alguns dos problemas comuns no seu dia a dia: falhas no pavimento, bicos de calçada rebaixados (difíceis de serem detectados com a bengala), obstáculos de sobra no caminho e por aí vai. “Orelhões, por exemplo, deveriam ter um quadrado de concreto embaixo, para identificá-los com a bengala”, diz ela.Também há dificuldades impostas por quem deveria cuidar das calçadas, mesmo que pareçam inocentes. “Vasos na calçada podem ser bonitos, mas é fácil tropeçar neles”, afirma Milene, que também chama atenção para portões abertos por mais tempo que o necessário. A Adeva fica localizada na Vila Mariana, próxima a outras instituições dedicadas a deficientes visuais, e uma mudança na rotina espacial é um empecilho significativo para quem se navega por meio de um mapa interior.

Problema maior é a falta de educação das pessoas, em todos os sentidos da acepção. Por um lado, há a pouca sensibilidade de quem agarra no braço de um deficiente visual e o arrasta em direção ao desconhecido, sem perguntar se havia necessidade de ajuda ou anunciá-la. Por outro, ainda há ignorância em relação ao piso tátil — aqueles traçados comuns no metrô, que facilitam a orientação com bengala. Na avenida Paulista, é tradição trechos de piso tátil serem ocupados por comerciantes informais dos mais variados tipos. Acidentes acontecem.

“É comum trombar com um vendedor e derrubar toda a mercadoria dele. Uns são compreensíveis, outros ficam bravos”, conta Milene. “Mas é falta de conhecimento do que é aquilo, antes de utilizar bengala, eu também não sabia qual era o propósito do piso.” Nascida com Glaucoma Congênito e sem a visão do olho direito, Milene enxergava razoavelmente bem até 2010, quando uma conjuntivite piorou sua condição. Para ela, ainda que as calçadas tragam mais dificuldades hoje, elas geram dor de cabeça para todos os pedestres da cidade: “Eu trabalhava na Paulista antes e precisava ir de tênis com o sapato de salto na bolsa, para vestir no escritório. Se tentasse andar na avenida com ele, corria o risco de cair ou torcer o pé”.Para quem precisa de auxílio de cadeira de rodas para se locomover, a situação não é muito melhor. Cadeirante a 17 anos, a produtora de eventos Luciana Trindade diz que se sente privilegiada por morar no Centro, onde o movimento constante de pessoas garante algum tipo de acessibilidade às calçadas. Isso não significa que a rotina seja livre de dores de cabeça: “Já cai, já quebrei minha cadeira”, diz Luciana, que anda bastante sozinha pela cidade. “O pior é quando há uma rampa de um lado da rua e do outro não. Passei por isso no Ibirapuera recentemente quando fui visitar a Bienal, e precisei da ajuda de amigos.”Participante do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito, Luciana foi uma das idealizadoras do projeto Calçada Cilada, um mapeamento coletivo de problemas nas calçadas em todo Brasil. Por meio do site e do aplicativo Cidadera, qualquer um podia registrar um defeito no calçamento em um mapa. Um dos relatórios gerados pelo projeto, específico para São Paulo, foi entregue à Prefeitura para facilitar a fiscalização dos pavimentos.

Ainda que considere que a situação melhorou muito em relação a alguns anos atrás, Luciana define como frustrante a experiência na maioria das calçadas paulistanas. “Minha deficiência só se torna aparente em um lugar que não me dá acesso e que reduz minha independência.”

Fonte: https://www.vice.com/pt_br/article/calcadas-de-sao-paulo

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