Do balé ao goalball: tumor no cérebro faz carioca se redescobrir no esporte
Do balé ao goalball: tumor no cérebro faz carioca se redescobrir no esporte

Do balé ao goalball: tumor no cérebro faz carioca se redescobrir no esporte

Ana Carolina Custódio nasceu em Madureira, berço do samba, era fã de Ana Botafogo e perdeu a visão aos 12 anos após cirurgia; esporte mudou a sua vida

Ana Botafogo levitava na ponta dos pés. Rodopiava. A pequena Ana Carolina Custódio assistia a tudo com os olhos imersos na televisão. O balé encantava e parecia ser o destino natural da menina nascida em Madureira, berço do samba e do baile charme. Aos 12 anos, porém, um tumor benigno no cérebro mudou a sua vida. Para salvá-la, os médicos a operaram de urgência. Do tamanho do caroço de um abacate, o cisto comprimia o nervo ótico de Carol. O procedimento foi um sucesso, mas a carioca perdeu a visão. De uma hora para outra, o desejo de voar como sua inspiração ficou pelo caminho, mas outra porta se abriu. Estudando no Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, ela conheceu o goalball e renasceu. Hoje, é um dos destaques do Brasil na Paralimpíada e quer uma medalha de ouro para coroar seu ressurgimento.

– Fiz balé desde o jardim de infância. Tinha o sonho de fazer faculdade de dança, de dançar no teatro municipal. Minha inspiração era a Ana Botafogo. Sempre que via na televisão, ela dançando na ponta do pé, era tudo o que eu queria fazer. Era a minha motivação de realizar um sonho profissional.  Quando perdi a visão, fiquei desmotivada e não dancei mais. Via muita limitação. Fui até assistir a algumas aulas de dança, mas tive muito medo quando perdi a visão. Fiquei dependente demais. O goalball me deu uma vida nova, uma cabeça nova, passei a valorizar a vida, o dia a dia, as pessoas. Tudo foi por conta do goalball – garante Carol, que estará em quadra pelo Brasil às 11h30 desta terça-feira, contra a Argélia.

Já morando em Pedra de Guaratiba, no extremo da Zona Oeste do Rio de Janeiro, a carioca passou a ter que se deslocar diariamente por 54km até o Instituto Benjamin Constant, na Urca, Zona Sul da cidade. Quem a levava era a mãe. Na volta, no rush do trânsito, gastavam até cinco horas no trajeto. Aos 15 anos, quando se adaptava à nova vida, Carol sofreu outro baque. Perdeu a mãe, dona Ana Maria Custódio.

– Todo dia era uma luta. Eu não sabia andar sozinha. Minha mãe era os meus olhos. Depois que perdi minha mãe, com 15 anos, tive que aprender a ter minha independência. Aí eu vi que estava cega. Fiquei interna no instituto, de segunda a sexta, dependia das pessoas para me buscarem. Aos poucos fui andando sozinha, aprendendo. O esporte me ajudou a ter essa independência. Conheci o goalball quando tinha 14 anos, na educação física. Fiz muitos gols e o coordenador da seleção, que é o técnico do instituto, me chamou para a equipe. Treinava sozinha, com os meninos, e fui crescendo – explica a jogadora.

Destaque da seleção brasileira feminina ao lado de Victoria Amorim, Carol mudou-se para São Paulo no ano passado. Hoje, vive do goalball e está noiva de Altemir Trapp, que faz a análise de desempenho da seleção masculina da modalidade. Os dois vivem do esporte e moram na Baixada Santista. Para Carol, a menina que poderia morrer na mesa de cirurgia ou ficar tetraplégica, ter perdido a visão é uma bênção.

– Foi milagre de Deus. Dos males, o menor. Não tenho do que reclamar. Hoje, sou classificada como B2, percebo cores com a vista esquerda, mas nada com a direita. É tudo preto. Mas sou uma B2 bem baixa, quase uma B1. Minha irmã e meu irmão foram como pais para mim. E estar aqui na Paralimpíada, jogando para eles verem, minha madrinha, meu esposo, só me faz crescer. Em quadra, jogo muito feliz. Muitos cegos não conhecem o goalball. Não é toda a escola que dá a modalidade. Só as especiais. Hoje, a oportunidade da Paralimpíada no Brasil é importante para divulgar o esporte – finaliza Ana Carolina.

Fonte: http://globoesporte.globo.com/paralimpiadas/noticia/2016/09/do-bale-ao-goalball-tumor-no-cerebro-faz-carioca-se-redescobrir-no-esporte.html#esporte-goalball

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