Gosto não se discute, mas faz a gente rir

Gosto não se discute, mas faz a gente rir

Das paixões que nascem em nós desde criança, a Arquitetura, foi a que não saiu do meu coração até hoje. Nos caminhos de ida e volta da escola, eu ia observando imóvel por imóvel e mapeava minhas construções favoritas.

Divertia-me imaginar como eram por dentro criando estórias e querendo morar em cada uma delas. Algumas delas me cativaram tanto que eu fixava o olhar como quem vê jóias numa vitrine.

Meu gosto é bem peculiar. Afeiçoei-me muito mais as construções antigas do que as mais recentes. Como nenhum amigo, nem familiar tem os mesmos parafusos soltos que eu acabam achando uma comédia quando sou enfática em expressar minha insatisfação com as edificações que surgiram de alguns anos para cá. Também me sinto na obrigação de rir de mim mesma, por sei que estas críticas não servem para muita coisa.

Preciso revelar motivos importantes para minha paixão por essa arte tão fundamental. Se repararmos bem é a cerca dela que acontecem duas coisas importantíssimas na vida: ela abriga a convivência de uma família; e revela quem é a sociedade para qual foi produzida. Por exemplo, os diversos casarões no estilo colonial revelam a influencia dos imigrantes espanhóis e português na cidade de Santos. Os prédios antigos, por sua vez, têm revestimentos, formas e cores feitas para ilustrar uma cidade praieira ensolarada e livre que se via na época.

Por sua vez os arranha-céus, que agora predominam pelas áreas mais urbanizadas da nossa Baixada, também estão contando a história do novo tempo presente. Pouco a pouco, vamos nos tornando mais uma metrópole que é toda marcada de grandes investimentos.

Empreendimentos com diversos blocos e centenas de apartamentos são necessários para atender a população que cresce desenfreadamente a cada ano.

O financiamento facilitado na compra de automóveis colocou as vagas de garagem como item de primeira necessidade. Áreas de lazer muito bem equipadas já dispensaram os antigos clubes.

E ai vai o principal fator de empreendimentos antigos e modernos destoarem tanto: a precaução contra violência. Esquemas de segurança, automatização de portões, câmeras de vigilância e guardas bem treinados são os sintomas do que acontece hoje nas ruas.

Além da segurança, os moradores estão priorizando a eficiência e praticidade. Só mesmo por saudosismo é que vou carregar comigo o valor da paisagem que até mesmo quem enxerga não vê mais.

Vou seguindo com esse romantismo “chatonildo” e antiquado compartilhado por quase ninguém. Tum bem é compreensível, pois gosto é gosto e necessidade é necessidade.

Certamente as praias estarão sempre lá e o céu continuará azul.
Texto de Verena de Lima Amaral

Verena

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