Entrevista para o site - História de vida com Milena
Uma guerreira no LMC
A aluna Milena ensina a todos o que é superação, no sentido mais amplo da palavra.
O que se entende por história de vida? Em um primeiro instante, algo inspirador, que sirva de exemplo para os outros.
A verdade é que todos têm alguma passagem para contar; algum momento de superação de obstáculos, de persistência, de
adaptação. Partindo desses pressupostos, pode-se entender como belo exemplo de vida a trajetória de Milena Ribeiro Simões,
de 26 anos.
Criada com o pai, a mãe e um irmão mais velho, e aluna do Lar das Moças Cegas desde 2003, sua história é atípica.
Foge do habitual no que diz respeito à superação. E a ênfase nessa questão não é exagero...
Tudo começou quando Milena nasceu e foi diagnosticada com Diabetes tipo um. "Cheguei a ficar em coma, ainda bebê.
Mas acabei me recuperando e passei a ter uma infância normal", diz. Teimosa como qualquer criança, ela resistia às
restrições impostas quanto à alimentação e via na escola, uma válvula de escape para comilanças que já estavam
proibidas em casa, como doces e refrigerantes.
Porém se ela soubesse o que viria pela frente, talvez tivesse pensado duas vezes. Milena teve uma vida normal
até os 15 anos, quando foi diagnosticada com hipertensão. Já por volta dos 17, foi acometida com insuficiência renal
crônica -, tudo em função do diabetes.
Apenas um ano depois, Milena teve um choque: notou, de repente, que conseguia visualizar sangue indo e vindo em uma
de suas vistas, embaçando completamente sua visão. Para as dores aparecerem também não demorou muito. Hora de correr para
o hospital e procurar um especialista em retina de São Paulo.
O tratamento consistia em cauterizar, a laser, os vasos sanguíneos do globo ocular para estancar a hemorragia. Mas era
algo recorrente - semanalmente lá estava ela, repetindo a cauterização. "Era um procedimento muito dolorido. O colírio
anestésico não acaba com a dor", revela.
Milena conta que, naquele momento, seu mundo virou de cabeça para baixo. "Estava infinitamente triste, chorava o
tempo todo". O tratamento por meio da cauterização trazia apenas alívio momentâneo. Para completar, ela ainda foi
acometida com um glaucoma, devido à pressão alta. Estava com 19 anos.
Pouco tempo depois, a mãe descobriu um nódulo no seio. Com medo de perder o emprego e não poder mais acompanhar
a filha em suas visitas quase que diárias a hospitais e médicos, optou em não operar.
Com o passar do tempo as vistas de Milena ficaram comprometidas com as hemorragias. Era
hora de fazer a cirurgia. Após o pré-operatório, ela subiu para a sala de operação, com a mãe a seu lado.
Porém o nível de glicemia e a pressão arterial altíssimos impediram que a cirurgia ao menos começasse.
Milena foi encaminhada ao quarto, sob medicação para que os índices baixassem e a operação acabou sendo adiada.
Nesse instante, ela admite que a parte emocional a abalou. "Fiquei destruída. Não sabia mais o que esperar e
me perguntava o que ainda faltava acontecer".
Cerca de três meses depois, Milena simplesmente acordou um dia e estava com a visão totalmente comprometida e
apagada (baixa visão severa, enxergando apenas claridade). Imediatamente, retornou a São Paulo para tentar
realizar novamente a cirurgia. Dessa vez, mais complicada, pois teriam que secar todos os vasos sanguíneos
que eram os responsáveis pelas hemorragias. A mãe contou que foram quase seis horas de muita tensão.
A filha teve uma parada cardiorrespiratória devido à anestesia geral.
Saiu da mesa de operação e foi direto para a Unidade de Tratamento Intensivo, onde permaneceu entubada por
cinco dias e com dreno nos pulmões. Nesse momento, os médicos diziam que não havia mais o que fazer, a não
ser esperar. A mãe de Milena simplesmente ouvia e rezava.
Até que finalmente, no quinto dia, ela despertou do coma profundo. No dia seguinte a desentubaram, ela
estava consciente e com a pressão normal. Resolveram remover os drenos. "Eu estava praticamente morta,
vivendo apenas por aparelhos", diz, baseando-se no que a mãe lhe contou.
Mas os desafios não estavam nem perto do fim. Lá estavam à frente de Milena mais dez dias de hospital fazendo
fisioterapia respiratória. Algum tempo depois, levaram-na para fazer ultrasom e raios-X do pulmão.
Constataram uma mancha de sangue. Imediatamente deram início ao tratamento com antibióticos, ou teriam que
recolocar os drenos. Felizmente, isso não foi necessário.
E assim, ela foi para casa. E o mais impressionante é que tudo que deu início a essa verdadeira batalha pela vida, -
a operação na visão-, não chegou a ser realizada. O médico que a atendeu desde o começo, segundo Milena, foi displicente.
"Ele não ficou do meu lado, não acompanhou esse processo... Simplesmente sumiu", comenta indignada.
Sem pensar em desistir procurou a opinião de um segundo médico, que se recusou a cuidar do caso por considerá-lo
"perigoso demais". Diante de tal afirmação, Milena cedeu e optou por não arriscar mais. "Não poderia passar por
tudo aquilo de novo. Estava traumatizada".
Apesar de todos os contratempos, Milena ainda não estava conformada com a perda de visão. "Até hoje, não me acostumei.
Como se acostumar a deixar de enxergar? Eu era totalmente independente, trabalhava, dirigia. A ideia de depender de
alguém para o resto da vida me afligia", confessa.
Era hora de assumir a condição e seguir com a vida. Ela conta que, no começo, não queria ingressar no Lar das Moças Cegas (LMC).
"Usar uma bengala? Isso não fazia parte dos meus planos. Mas ao mesmo tempo, não podia ficar em casa trancada para sempre",
brinca.
Em 2003, resolveu dar uma chance à instituição. Passou pela triagem e após cerca de dois meses foi chamada. Isso em abril de
2003. "Foi um passo muito grande para mim, foi tudo muito difícil. Eu morria de vergonha, estava assustada, com medo...".
Nessa nova etapa, destaca que a mãe era seu alicerce. "Minha mãe me incentivava, era minha psicóloga. Estava sempre ao meu
lado". No momento em que chegou ao LMC ela se matriculou em aulas, cursos profissionalizantes, fez amigos e pode
trocar experiências.
Com a situação um pouco mais tranqüila e a filha de certa forma, inserida novamente no contexto social, a mãe de Milena
decidiu que era hora de fazer a mastectomia. Em um primeiro instante, tudo correu bem. Porém como era de se esperar,
em razão da demora em operar, o nódulo evoluiu para uma metástase por já estar em estado avançado. Nessas condições,
cirurgia não era mais uma opção; restava apenas o tratamento com quimioterapia e radioterapia.
Sempre que podia, Milena acompanhava a mãe aos hospitais. "Era o meu momento de retribuir tudo que ela já havia feito
por mim até então", diz com gratidão. Uns três anos depois, sua mãe foi internada no hospital. E Ambas travaram uma nova
batalha pela vida, a qual durou cinco anos (desde o momento em que o nódulo foi diagnosticado) já que sua mãe não resistiu e
faleceu em 2004.
Milena conta que a perda do pai foi muito difícil, mas a da mãe foi quase impossível de superar. "Sentia-me perdida, sozinha.
Ausentei-me do LMC por duas semanas, fiquei sem comer... Só queria morrer. Não queria ficar aqui, queria estar com ela...",
relembra. Tinha 21 anos.
Ela reconhece, porém, o papel fundamental que o LMC e seus colaboradores desempenharam para que conseguisse se reerguer.
"Recebi muito amparo, muito carinho, muita ajuda de todos aqui. Sou extremamente grata, até hoje".
Em junho de 2004, Milena conheceu no próprio LMC o professor de orientação e mobilidade, Gilmar, que também a ajudou bastante
durante esse processo de recuperação e adaptação. Dois meses depois os dois começaram a namorar. "Ele me levantou. Era tudo
que eu precisava. Sempre que estávamos juntos nos divertíamos muito!".
Após o falecimento da mãe, Milena conseguiu retomar boa parte de sua independência de volta: "Voltei a passar, lavar,
cozinhar, cuidar da casa... Tudo sozinha!", festeja.
Por intermédio de Gilmar, que também é estudante de Educação Física, começou a praticar natação e Goalball e virou atleta.
Já competiu em diversos campeonatos e coleciona vários troféus e medalhas. "Ele me inspirou nessa atividade. Hoje em dia
levo muito a sério e me dedico totalmente aos esportes".
Histórias como a de Milena fazem mais do que simplesmente inspirar. Devem ser entendidos como verdadeiros exemplos de conduta
e, mais do que isso, de amor pela vida.