Kim Geun-tae, artista plástico: ‘Países que tratam bem os deficientes lideram o mundo’
Kim Geun-tae, artista plástico: ‘Países que tratam bem os deficientes lideram o mundo’

Kim Geun-tae, artista plástico: ‘Países que tratam bem os deficientes lideram o mundo’

Coreano que tem problemas de audição e retrata crianças com deficiência veio ao Rio para 1ª Semana Internacional de Acessibilidade e Cultura

“Sou pintor e desenho deficientes mentais. Faço isso há 24 anos. Quando era criança, devido ao meu problema de audição, não ouvia e não falava muito bem, também tinha a visão comprometida. Meus pais não cuidavam muito de mim, e meus colegas me isolavam. Eu me sentia solitário, então comecei a desenhar.”

Conte algo que não sei.

Crianças deficientes mentais são anjos para mim. Um dia, estava dormindo e comecei a sonhar com crianças com síndrome de Down que eu conheço. No sonho, elas tentavam me acordar. Então, acabei despertando de fato e vi que minha casa estava pegando fogo. Essas crianças me salvaram; o sonho mostra que elas cuidam de mim.

Por que decidiu pintar somente deficientes mentais?

No começo, desenhava paisagens e, depois, parei de trabalhar na escola e fui para Paris estudar arte. Comecei a pensar o que deveria retratar em minhas pinturas, voltei para a Coreia do Sul e passei a desenhar pessoas solitárias. Idosos, pessoas sós no metrô, mendigos, órfãos. Depois fui para uma ilha onde moram somente deficientes mentais e comecei a pintá-los.

Fale mais sobre essa ilha.

Antigamente, na Coreia, a sociedade não aceitava deficientes mentais. Essas crianças eram abandonadas pelos pais. Então, muitas delas que não tinham onde morar eram levadas para lá. As pessoas na Coreia achavam que deficientes mentais eram um fardo. Hoje, a situação melhorou. Os direitos humanos estão mais disseminados no país. As pessoas têm mais interesse nos deficientes, e o governo coreano tem contribuído bastante.

Lá ainda há preconceito em relação aos deficientes?

Ainda existe preconceito. Mas, os religiosos, principalmente, têm se envolvido na causa e estão se esforçando para promover direitos humanos para essas pessoas. O governo tem tentado tomar medidas que ajudem na inclusão delas. Mas, por exemplo, só há pouco tempo passamos a ter ônibus adaptados para deficientes. Antes, os coreanos escondiam as pessoas com deficiência.

Em termos de inclusão de deficientes, é possível comparar a Coreia com o Brasil?

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Faz pouco tempo que estou no Brasil, não conheço tão bem o país. Mas, pelo que vi, aqui, por exemplo, a maioria dos ônibus é adaptada para promover acessibilidade a deficientes. Já estive em outros países, como Estados Unidos e Alemanha, e não vi isso. Acho que no Brasil as pessoas pensam mais nos deficientes que em outros países.

O fato de o país ter sediado a Paralimpíada pode contribuir para promover mais políticas voltadas às pessoas com deficiência no futuro?

Os países que tratam bem os deficientes lideram o mundo. O Brasil acaba demonstrando sua preocupação com o tema a partir do momento que me chama para expor minha arte aqui. Esse é um bom exemplo para outros países. Seria ótimo se houvesse uma Paralimpíada cultural também. Veríamos que, com investimento em arte e promoção da inclusão dessas pessoas, os deficientes podem surpreender o mundo em vários campos.

Como promover o empoderamento dessas pessoas?

As pessoas têm preconceitos porque consideram que os deficientes são incapazes, atrasados, mas, na realidade, não são. Eles têm a mente pura e a maioria deles tem super-habilidades em alguns campos, como arte, música, ciência. Podemos auxiliá-los a identificar habilidades e a desenvolvê-las. Quando morava nessa ilha, ensinei crianças a desenhar, a copiar minhas pinturas, e fiquei assustado com a capacidade delas. Acho que se estivermos abertos a essas pessoas podemos ajudar a esclarecer o mundo. Quero fundar uma escola de arte para deficientes mentais. Vou economizar o dinheiro que arrecado com a venda de minhas peças.

 

Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/kim-geun-tae-artista-plastico-paises-que-tratam-bem-os-deficientes-lideram-mundo-20159415

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