No Dia Nacional do Cego, eles não têm motivos para comemorar

No Dia Nacional do Cego, eles não têm motivos para comemorar

É preciso muito avanço ainda, segundo os deficientes visuais | Foto: Sheyla Leal/ObritoNews/Fato Online width=
É preciso muito avanço ainda, segundo os deficientes visuaisSheyla Leal/ObritoNews/Fato Online

Os deficientes visuais sofrem com a falta de acessibilidade, têm dificuldades em conseguir um emprego, em pegar ônibus, em praticar esportes e até mesmo em conseguir um cão-guia. No próximo domingo (13) o Dia Nacional do Cego será lembrado e muitos deles ainda se sentem esquecidos pelo poder público.

Professor de Braille no Centro de Ensino de Deficientes Visuais, na Asa Sul, Fernando Rodrigues, 38, admite que a tecnologia evoluiu muito, e ajuda no dia a dia do deficiente visual, mas a acessibilidade quase não existe em Brasília.

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“Está muito devagar. As empresas não contratam cegos porque fica mais caro por causa da adaptação que precisa ser feita”, lamenta. O professor ficou cego aos seis anos de idade depois de ser atingido por uma bolada. “Eu precisava ser operado em seis meses e não operei. Com o descolamento da retina acabei ficando cego”, lembra.

Maria do Amparo Santos, 42, mora no Gama e tem uma filha, Viviane, de 19 anos que nasceu com deficiência visual. Ela teve que se dedicar integralmente à criança. “Passei a vir para a escola todos os dias. Não tem atendimento perto de casa, nem escola e nem profissionais preparados. Saio de casa 5h30 e só vou embora a noite. Praticamente moro nessa escola”, conta.

Amparo lembra que precisou investir em um curso de pedagogia para cuidar melhor da filha. “Se não for o nosso esforço de provar que eles são capazes e exigir os direitos deles no Ministério Público, eles não têm oportunidade”, reclama.

Acompanhamento

Outra assistência que os deficientes visuais precisam é o acompanhamento oftalmológico. Por não enxergarem os cegos acreditam que não precisam cuidar dos olhos.

O oftalmologista Bruno Prieto explica que pessoas cegas também sofrem de problemas oculares. “Ela pode não enxergar, mas corre risco de desenvolver patologias na superfície dos olhos, por falta de lubrificação, conjuntivite e degeneração macular”, exemplificou o médico.

Maria do Amparo e a filha Viviane: dedicação integralSheyla Leal/ObritoNews/Fato Online

Segundo o especialista, o clima seco de Brasília contribui ainda mais para a secura do olho, conjuntivites alérgicas e infecciosas, comuns aos cegos. “Além disso há a atrofia dos olhos que esteticamente pode ser ruim. São situações que com visitas regulares a um oftalmologista seriam facilmente resolvidas ou evitadas”, alerta.

Viviane nasceu com 27 semanas de gestação e segundo a mãe Maria do Amparo, ela nasceu sem oxigênio e teve a retina queimada e não desenvolveu a visão. Mesmo sem nunca ter enxergado, recentemente a jovem passou por uma cirurgia de retirada do globo ocular. “O globo não crescia do mesmo jeito que o crânio e começou a atrofiar, gerando muita dor. Agora vai ser preciso colocar uma prótese”, explicou a pedagoga.

Além de frequentar a escola, Viviane passou no curso de letras com especialização na língua inglesa na UnB (Universidade de Brasília). Motivo de orgulho para a mãe. “Mesmo com dores ela conseguiu passar pelo sistema universal, sem cotas”, comemora Amparo.

Reversão

O oftalmologista alerta, ainda, para a possibilidade de reversão da cegueira em alguns casos. “O paciente pode voltar a enxergar e nem saber disso. E mesmo se não houver como, a medicina está evoluindo rápido e há estudos que buscam trazer à tona a visão. Pode ser que daqui a alguns anos isto seja palpável e acessível a todos. Não costumo receber pacientes cegos, seria bom se todos se preocupassem mais”, reforça Bruno Prieto, ressaltando a importância do cuidado com os olhos, mesmo daqueles que não enxergam.

Policial auxilia deficientes a atravessarem a rua em frente a escolaSheyla Leal/ObritoNews/Fato Online

Charles Jatobá, 44, é revisor de textos em braille, no Centro de Ensino médio Ave Branca em Taguatinga. Ele oferece apoio para os deficientes visuais na sala de recursos do centro educacional. Para ele, a criação da Coordenadoria de Promoção da Pessoa com Deficiência pela Secretaria de Justiça do Distrito Federal é o principal avanço. “Lá tem acessibilidade, impressão de textos em braille, passe livre e a confecção de documentos”, elenca.

Mas o que Charles deseja mesmo é ter espaço para transitar pela ruas da cidade. “No dia do deficiente visual eu queria poder ter direito de ir e vir . A gente esbarra em pessoas que dormem nas calçadas. Os camelôs espalham barracas aonde querem e ainda existem muitos degraus e escadas que são verdadeiras barreiras para nós”.

Fonte: http://fatoonline.com.br/conteudo/13928/no-dia-nacional-do-cego-eles-nao-tem-motivos-para-comemorar?or=i-not&p=re&i=1&v=0&q=platini

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