Passo a passo
Passo a passo

Passo a passo

Saio da sala com muito cuidado de um tipo que eu nunca tive antes e tentando não esquecer das instruções passadas. Procuro a parede e com a lateral da minha mão vou seguindo pelo corredor. A parede me passa segurança. Inconscientemente arrasto meus pés, o que meu acompanhante já havia explicado que é errado. Prossigo. Nunca um móvel pareceu tão assustador. Continuo e tento não fazer tanto barulho, porém me falta delicadeza.

Minha noção espacial nunca foi boa e eu que às vezes me atrapalho com direita e esquerda, sinto que estou testando-as ao extremo.  Aparece um novo desafio: escadas. Olho para elas com sinal de interrogação. Eu já havia visto alunos descendo e subindo.  Penso seriamente que eu vou cair, quando tropeço, só ouço: “Calma, estou aqui. Você não vai cair”. Dos dois jeitos que tem, escolho o que acho mais fácil. Passo a passo, vejo que pode não ser tão simples, mas é possível, até mesmo para uma pessoa desatenta como eu.

No andar de baixo, próximo à cozinha e ao refeitório sinto cheiro de laranja. Curioso pensar que uma experiência de alguns minutos aguçou tanto os meus sentidos. Quando saio na entrada o calor do sol parece me prejudicar. Engano meu, foi um ótimo guia.

Zaine de 19 anos, João Vitor de 15 anos  e Tatiane de 21 anos sabem muito bem do que se trata a minha vivência. Eles em tempos diferentes passaram por esse mesmo processo buscando aprenderem ou reaprenderem a caminhar sozinhos, uma das etapas que 400 alunos -crianças, adolescentes e adultos – com baixa visão ou cegueira total desenvolvem no Lar das Moças Cegas (LMC), um centro de educação e reabilitação do deficiente visual localizado em Santos.

Tatiane Santana nasceu enxergando e há um ano ficou cega em decorrência de uma doença rara e teve que se readaptar a uma nova condição.  “Eu achei que tinha me tornado uma inútil e que não poderia trabalhar. Quando entrei aqui. Vi que tudo é diferente”, diz. Hoje no LMC ela faz aulas de leitura, braile no qual está mais concentrada, yoga, capoeira e participa do blog no site da instituição.

Já para Zaine Lima, portadora de baixa visão desde seu nascimento, ir ao LMC é uma rotina agradável há 14 anos, sua participação nas atividades da instituição começa cedo e termina a tarde e fez com que ela refletisse que ela mesma não tem quase nada.  Ela faz aulas de informática, telefonia, oficina, educação física e participa do goalball, da banda e do blog. Além disso, faz tudo em casa.

Gilmar que já foi aluno e hoje ministra as aulas de Orientação e Mobilidade explica que há vários tipos de baixa visão. No caso dele que teve catarata congênita quando criança, um erro médico e o desenvolvimento da doença no outro olho fez com que ele tenha 5% de visão no olho direito.  A baixa visão se divide em 3 tipos: leve, isto é, quem possui 30% da visão e pode recorrer a óculos e contrastes; moderada, no qual o deficiente pode usar bengala, óculos e lupas e severa como no caso dele em que para ver detalhes ele precisa se aproximar muito.

Valéria que também dá as aulas conta do seu caso. Já fui atropelada três vezes, se você me perguntar eu enxergo, a definição seria  como uma foto embolorada. Eu não tenho foco. A minha visão é periférica.

Enquanto me acompanhava no meu passeio com a bengala, o professor me contou que quem tem baixa visão sofre mais preconceitos porque as pessoas não entendem que dependendo da doença ou do problema que a pessoa sofreu o resíduo visual dela é diferente. Alguns casos a pessoa enxerga melhor à noite, ou quando há luminosidade, há quem se oriente por pontos de luz ou mantenha a cabeça levantada ou abaixada ou mexa a cabeça em alguma direção.

Para entendermos melhor como tudo é mais individual do que pensamos,  as bengalas são feitas de acordo com a altura do deficiente. No LMC , eles  passam por um processo de aprender o Braile, ir ao psicólogo, recomeçar a fazer as coisas sozinho por meio das aulas de Atividade da Vida Diária e nisso ele vem para as aulas de Orientação e Mobilidade na qual existem técnicas e limitações, na qual nem todos conseguem, conta Gilmar.

Buscar a parede, posicionar o dedo no cabo da bengala, usar autoproteção com as mãos, contar portas, treinar a marcha sem arrastar os pés, colocar a lateral da mão na parede, manter o equilíbrio e utilizar o instrumento em questão com delicadeza são alguns dos passos, sabendo que para uso interno e externo os procedimentos são diferentes.

Para quem enxerga o calor do sol, o som, o vento ou um cheiro na maioria das vezes  não servem de referência. Nos apegamos a visão num ponto que deixamos o resto em segundo plano. Maria Auxiliadora há 14 anos ensina crianças e adolescentes a cozinhar e a comer bem nas disciplinas de cozinha trivial e experimental.  Por meio de truques e uso da audição, do olfato e do paladar os alunos aprender a fazer biscoitos, pães, bolos, massas, arroz, feijão, bife, cupcake e outros quitutes.

Num primeiro momento o aprendizado teórico de medidas, higienização, arrumação de mesa e geladeira, dicas de adaptações, reconhecimento do ambiente e dos alimentos, além de técnicas de como pegar a faca iniciam os alunos a segunda parte na qual eles aprendem refogar, fritar, torrar, assar e cozinhar os mais diversos alimentos em receitas econômicas e reaproveitando desde o talo até o resíduo de milho ou soja.  Sabendo manter distância, empregar menos velocidade e prestando atenção no tempo os alunos saem de lá sabendo como cozinhar para si mesmo, para sua família e até mesmo para abrir um negócio.

Seguindo um lema de que cada aluno tem suas dificuldades, limitações e experiência próprias, as atividades desenvolvidas pela entidade inserem o deficiente visual em um novo cenário mostrando para eles e para os outros que com paciência e tempo todos obstáculos que existem podem ser vencidos.

Fonte: http://www.revistaartefato.com/reportagens_7.html

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