Sem enxergar, eles sentiram-se no lugar do outro
Sem enxergar, eles sentiram-se no lugar do outro

Sem enxergar, eles sentiram-se no lugar do outro

“Como se oferece ajuda quando vemos algum deficiente visual parado com a bengala?”, essa era uma das tantas dúvidas que surgiram para a voluntária da Marcha Cega, Mariana Faria Corrêa. Ela sentiu “na pele”, na manhã desta sexta-feira, o que vivem os deficientes visuais em Venâncio Aires.”Me sinto insegura. Eu não sei onde estão os carros e não sei onde é o final da rua. Não sei quem está ao meu redor, a gente não vê ninguém e não se sabe quem está aqui”, comenta.

Mariana foi uma das voluntárias que participou da caminhada realizada ontem, no centro da Capital do Chimarrão. A iniciativa, denominada Marcha Cega, consistiu em desafiar pessoas que enxergam a viver o outro lado: o lado do deficiente visual. Para isso, eles foram guiados por cegos durante um trajeto que percorreu as calçadas da Osvaldo Aranha, do trecho que vai da Praça Evangélica até a Praça da Matriz. No caminho, os participantes encontraram tudo aquilo que quem enxerga nem percebe que faz tanta diferença em estar ou não li: mesas, cadeiras, placas de anúncios, postes foram alguns dos obstáculos. O ouvido foi o “melhor amigo”, era a partir dele que surgiam as únicas informações emitidas através dos sons e dos passos firmes que mostravam o que vinha pela frente.

Coordenado pelo músico, compositor Lucas Brolese, que trabalha há seis anos com deficientes visuais, a iniciativa já foi realizado em Lajeado e teve sua primeira edição no município. “Esse momento tem como objetivo desenvolver nas pessoas a empatia, conhecida pela capacidade de colocar-se no lugar de outra pessoas, sentir o que o outro sente e as necessidades que possuem”, explica.

Mediador desta proposta em Venâncio, o deficiente físico Orlei da Costa, que também é presidente da Associação de Pais, Amigos e de Pessoas com Deficiência Visual (Apadev), foi um dos guias nesta atividade e ao final da caminhada destacou a importância do momento que tem justamente a intenção de despertar a consciência nas pessoas.

Conforme Brolese, as fotos da primeira edição do evento estão expostas no Instituto Helen Keller, na Costa Rica. A intenção é que no próximo ano um curta-metragem seja feito a partir deste trabalho.

 

OLHAR DO REPORTER – De olhos bem abertos, mas cegos

Quem passou pela rua, não estava entendendo o que acontecia. O olhar era de curiosidade e, às vezes, repressão. Principalmente, na hora de parar, para o grupo que participava da Marcha Cega atravessar a rua.

Ao longo do caminho, pude observar, com mais clareza, o quanto de objetos obstruem o caminho daqueles que não tem visão e que necessitam, desafiarem-se a cada dia que saem de casa.

Passou por mim um sentimento de “tirar tudo da frente” para que eles conseguissem passarw sem se machucar. Sinto que cada um deveria passar por momentos como esse, principalmente, para sentir mais carinho e ter, acima de tudo, a sensibilidade de ver quanto alguém precisa de ajuda, principalmente, um deficiente visual.

Em especial, aos proprietários de estabelecimento que possuem algum tipo de objeto sobre a calçada em frente a sua loja, por favor, coloque-se no lugar do outro. A acessibilidade está difícil e o amor ao próximo menor ainda.

Uma lição de olhos vendados

Osvaldo Aranha. Sexta-feira, 11h. O fluxo do trânsito na principal rua da cidade no horário de pico, tudo proposital.

Colocar a venda preta e apertá-la de forma que nenhum feixe de luz entre nos meus olhos era apenas o primeiro desafio do momento que me proporcionaria uma ‘aula’ para a vida toda. Vivi 60 minutos como um cego, um mundo sem cor, mas cheio de vida. E de obstáculos.

Pouco antes de partirmos em ‘trenzinho’, Alessandro, deficiente visual há 34 anos, dá sua opnião: “Vamos atravessar a rua e ir pelo lado esquerdo da Osvaldo Aranha, pois tem mais obstáculos’, disse aos risos. Ele queria nos dar ainda mais emoções, mas na verdade, denunciava o lado menos acessível da movimentada calçada.

A impressão inicial é de estranhamento. Dou poucos passos na calçada da Praça Evangélica, na rua Voluntários da Pátria, para já entender que o que mais dá segurança naquele momento são os passos firmes. Também foi tempo suficiente para constatar que de nada adianta firmar os pés, se as lajes da calçada teimam em balançar. E como balançam. Quando não se enxerga, os passos devem ser mais lentos e por isso, você logo percebe que um centímetro de desnível é muito para quem precisa sentir o que tem à frente para dar o próximo passo.

Chegar na esquina e não ter ninguém para te ajudar a atravessar a rua também deve ser outra tarefa difícil. Não foi o meu caso que estive guiada pela Su, minha guia cega. Mas, com ela aprendi que para um cego a audição é tudo ou quase tudo. O som do carro, das motos, do ônibus ao mesmo tempo que me causaram medo e a impressão de que os veículos estavam vindo em minha direção, é o aliado na hora de ‘sentir’ o trânsito. No caminho, o som que anunciava as promoções em frente a uma loja chegavam como um ruído. Atrapalha, polui e dificulta ouvir o que precisa ser ouvido.

No trajeto, além da calçada desnivelada ou raízes de árvores, cadeiras, vasos de flores, propagandas e pedaços de papel deram insegurana aos passos de quem parecia nem conhecer a cidade que nasceu e cresceu. Ao contrário do meu amigo Alessandro, que enquanto descíamos a rua, dizia o nome da loja ou do estabelecimento como quem estava olhando e apontado para a porta de cada um. Sensibilidade pura!

Quando o trajeto estava terminando e achei que nada mais podia me surpreender, bati em um poste de concreto no meio da calçada. E pensei, quantas e quantas vezes passei por ele e nunca me importei?

Nesses 60 minutos aprendi que na vida de um cego não pode existir pressa. Andar é uma rotina que não abre espaço para a velocidade e a impaciência. Aprendi que somos tão pequenos e principalmente, que quase todos nós somos cegos. Cegos para a realidade, para o outro. Cegos para a acessibilidade. Só vivendo o lugar do outro que podemos tornar o mundo mais justo, mais igual.

Fonte: http://www.folhadomate.com/noticias/local/sem-enxergar-eles-sentiram-se-no-lugar-do-outro

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