Sem visão, jovem pratica confiança no próximo para andar por Ribeirão Preto

Sem visão, jovem pratica confiança no próximo para andar por Ribeirão Preto

Grazielle Luzia Fialho, de 24 anos, é um exemplo de superação. Deficiente visual desde que nasceu, a jovem demonstra autonomia para se deslocar pelas ruas de Ribeirão Preto (SP), seja a pé, seja de ônibus. Mas até para quem aprendeu a praticar diariamente o exercício da autodeterminação e da confiança no próximo, se locomover sem recorrer a carro ou táxi pode ser uma tarefa complicada, repleta de surpresas.

Na Semana Nacional do Trânsito, o G1 acompanhou por um dia os 12 quilômetros e as aproximadamente duas horas que separam a casa de Grazielle da Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto (Adevirp), local que ela frequenta desde quando tinha apenas 4 anos (acompanhe no vídeo). Para a ida e a volta entre a entidade, que fica na zona sul, e sua casa, na zona norte, há seis anos ela se locomove por calçadas, atravessa faixas de pedestres e pega dois ônibus diferentes. Situações em que detalhes, como a falta de sinalização adaptada para o local da travessia ou para o momento em que o semáforo fica vermelho para os carros, fazem toda a diferença quando o assunto é mobilidade.

Rumo ao Centro
São 14h30 de uma tarde de sexta-feira. Após deixar o prédio da Adevirp, Grazielle caminha pela calçada até o ponto de ônibus mais próximo. A noção apurada de distância a permite saber exatamente onde está. Mas logo na espera do circular que a levará ao Mercadão, na Avenida Jerônimo Gonçalves, surge o primeiro desafio: identificar em que veículo deve embarcar. Descobrir isso fica mais fácil quando, por boa vontade, alguém ajuda ou quando o motorista a informa. Caso contrário, é perda de tempo na certa.

“A gente tem que saber qual ônibus que passa, se vai para o Centro. Uma vez não perguntei qual era, entrei e peguei errado. O motorista começou a fazer um percurso que eu não conhecia. Eu e outra pessoa descemos, ficamos um pouco perdidas e tivemos que voltar ao ponto da Adevirp de novo para pegar o ônibus que ia ao Centro”, relata.

Grazielle utiliza ransporte público de Ribeirão Preto para ir à Adevirp (Foto: Rodolfo Tiengo/G1)
Grazielle depende do transporte público
para ir à Adevirp (Foto: Rodolfo Tiengo/G1)

Desta vez, graças ao aviso de outras pessoas que estavam no mesmo ponto, Grazielle entrou na linha correta. No interior do veículo, duas novas situações surgem. A mais imediata é achar um lugar para se acomodar. De um modo geral, a jovem afirma que as pessoas cedem o banco, mesmo que ela não considere a deficiência visual um impedimento para ir em pé. Porém, nem sempre o ato é espontâneo. O preconceito que não se pode enxergar acaba sendo entendido de outras maneiras, explica Grazielle. “Tem gente maldosa. Várias vezes ouvi gente falando que cego não tinha que andar de ônibus, que cego tinha que andar com uma van só pra gente, que a gente não tinha que ir de ônibus pra roubar os bancos deles. A gente escuta muita coisa”, desabafa.

A segunda “missão”  é saber o momento certo de desembarcar. Neste caso, a jovem garante que já não precisa de tanta ajuda. Com o tempo, ela aprimorou o senso de direção de modo a conseguir entender o percurso apenas pelas oscilações do ônibus. “Não sei explicar. É mais pelo movimento do ônibus. Vou percebendo as viradas e desço. Quando comecei a andar sozinha, consultava muita gente, passava muito do ponto e descia no lugar errado.”

Parada no Mercadão
Às 15h30, a passageira desembarca no Centro, em frente ao Mercado Municipal. Como o próximo ônibus que segue em direção ao Jardim Alexandre Balbo estaciona na mesma calçada em que ela está, resta procurar um fiscal do transporte urbano, que ela considera um amigo, para orientar sobre o momento certo de embarcar.

Sem semáforo sonoro e sem uma indicação adequada sobre a faixa de pedestres, se ainda fosse de manhã, quando costuma também ir sozinha à Adevirp, a jovem precisaria de alguém para que pudesse atravessar a Avenida Jerônimo Gonçalves em segurança. “Quando não tem fiscal ali é horrível, porque dependo das outras pessoas e as outras pessoas muitas vezes passam com muita pressa ali. Eu falo: ‘você pode me avisar do ônibus?’. A pessoa responde: ‘posso’. Mas quando me dou conta a pessoa já foi embora. Quando não tem fiscal, fico ali perto da rua até aparecer alguém que me ajude. ”

Grazielle sabe exatamente o ponto em que deve descer do ônibus (Foto: Rodolfo Tiengo/G1)
Grazielle sabe exatamente o ponto em que deve
descer do ônibus (Foto: Rodolfo Tiengo/G1)

Em suas passagens pelo Centro, Grazielle nem sempre embarca direto para casa e aproveita para passear com os amigos pelas lojas. Nesses momentos, embora a noção de espaço garanta que ela chegue aos lugares que deseja, buracos e degraus nas calçadas e as obras inacabadas no calçadão são obstáculos perigosos, reclama a pedestre. “É horrível, tudo esburacado. O calçadão está uma bagunça. Está muito complicado andar ali. Às vezes tem buraco e a gente cai.”

Trajeto final
Na última parte de sua viagem, Grazielle deixa a região central por volta das 15h50. A conversa com quem está ao lado no ônibus e o telefone celular a ajudam a acelerar o tempo perdido, em parte, pelo volume de carros que causam lentidão em vias como a Avenida Dom Pedro. Habituada ao itinerário, já no bairro Alexandre Balbo ela desce no ponto mais próximo de sua casa, de onde segue a pé, no meio da rua, sem se preocupar com o movimento dos carros.

A preferência pela via, ao menos ali, se dá pelas más condições das calçadas. “Eu não gosto de andar pela calçada porque tem degrau, muita coisa. O povo deixa as coisas, às vezes tem lixeira. Não gosto. Sempre venho pela rua. Quando escuto um carro, vou para a calçada. Mas aqui perto de casa, a rua não costuma ser muito movimentada”, diz.

Estratégia que nem sempre se mostra segura. Foi assim que certa vez Grazielle bateu a cabeça em um caminhão que, segundo ela, estava estacionado em lugar errado. “A bengala não pega o caminhão, porque ele é alto. O caminhão não estava parado no lugar certo, tem cinco metros para parar depois da esquina. Desci e bati a cabeça. Tenho a cicatriz.”

Apesar das más condições encontradas em seu percurso diário, Grazielle garante não abrir mão de sua independência. Ela sugere, além de melhorias estruturais, mais respeito ao pedestre. “Depender do transporte público é estar sujeito a qualquer coisa. Temos que confiar nas pessoas.”

Pelas oscilações do ônibus, Grazielle sabe exatamente quando descer  (Foto: Rodolfo Tiengo/ G1)
Pelas oscilações do ônibus, Grazielle sabe exatamente quando descer (Foto: Rodolfo Tiengo/ G1)

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